quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

TENTATIVAS DE EXPLICAR A TRINDADE



 O MONARQUIANISMO DINÂMICO: A PRIMEIRA TENTATIVA FRACASSADA 

Os monarquianos procuravam preservar o conceito da unicidade de Deus - a monarquia do monoteísmo. Focalizavam a eternidade de Deus como o único Senhor, ou Soberano, em relação à sua criação. 

O monarquianismo apareceu em dois tipos diferentes: Dinâmico e Modalístico. O Monarquianismo Dinâmico (também chamado Monarquianismo Ebionita, Monarquianismo Unitariano ou Monarquianismo Adocionista) antecedeu o Monarquianismo Modalístico. 

O Monarquianismo Dinâmico negava qualquer noção de uma Trindade eternamente pessoal. A escola monarquiana dinâmica era representada pelos Alogi,49 homens que rejeitavam a cristologia do Logos. Os Alogi baseavam a sua cristologia exclusivamente nos Evangelhos Sinóticos, e repudiavam a cristologia do Evangelho de João, porque suspeitavam que havia concepções helenísticas no prólogo do seu Evangelho. 

Os monarquianos dinâmicos argumentavam que Cristo não era Deus desde toda a eternidade, mas que se tornara Deus em certo momento do tempo. Embora existissem diferenças de opinião quanto ao momento exato determinado para a deificação do Filho, a opinião generalizada era que a exaltação do Filho ocorreu no seu batismo quando, então, foi ungido pelo Espírito. Cristo, pois, mediante a sua obediência, tornou-se o divino Filho de Deus. Cristo era considerado o Filho adotivo de Deus ao invés de ser tido como o eterno Filho de Deus. 

O Monarquianismo Dinâmico também ensinava que Cristo foi exaltado progressivamente, ou dinamicamente, à condição de Deidade. O relacionamento entre o Pai e o Filho era percebido não em termos da sua natureza e existência, mas em termos morais. Ou seja: não se considerava que o Filho possuísse igualdade de natureza com o Pai (homoousios: homo significa "idêntico" e ousios significa "essência"). Os monarquianos dinâmicos postulavam que entre Jesus e os propósitos de Deus existe um relacionamento meramente moral. 50 Um dos defensores antigos do Monarquianismo Dinâmico era o bispo de Antioquia no século III, Paulo de Samosata. Surgiu um grande debate entre a Igreja Oriental e a Escola Antioquiana, de um lado, e a Igreja Ocidental e a Escola Alexandrina, de outro lado. O enfoque do debate era o relacionamento entre o Logos e o homem Jesus. 

Harold O. J. Brown observa que "a forma que o adocionismo do Monarquianismo Dinâmico encontrou para conservar a unidade da Deidade foi sacrificando a divindade de Cristo". 51 O Monarquianismo Dinâmico é, portanto, uma tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário, que termina num beco sem saída, em uma heresia. 

Paulo de Samosata teve Luciano como sucessor no Monarquianismo Dinâmico. O aluno mais destacado de Luciano era Ário. Este estava por trás da controvérsia ariana que resultou na convocação dos bispos em Nicéia e na elaboração do famoso Credo Trinitariano (325 d.C). Antes, porém, de considerarmos o Arianismo, examinemos o se-gundo tipo de Monarquianismo: o Modalismo. 

 O MONARQUIANISMO MODALÍSTICO: A SEGUNDA TENTATIVA FRACASSADA 

As influências principais que estavam por trás do Monarquianismo Modalístico eram o gnosticismo e o neoplatonismo.52 Os monarquianos modalísticos concebiam o Universo como uma unidade, todo organizado, manifestado numa hierarquia de modos. Os modos (assemelhados a círculos concêntricos) eram considerados vários níveis de manifestações de realidade que emanavam de Deus, "O Único" que existe como "existência pura", como o Ser Supremo no ponto mais alto da escala hierárquica (influência neoplatônica). 

Os monarquianos modalísticos ensinavam que a realidade diminuía-se à medida que uma emanação se distanciava de "O Único". Por isso, a categoria mais baixa da existência seria a matéria física do universo. Embora a matéria ainda fosse considerada parte de "O Único", do qual emana, os modalistas consideravam que ela existia numa forma inferior (influência gnóstica). Pela proposição inversa, pensava-se que a realidade aumentava, ao progredir em direção a "O Único" (também chamado a Mente Divina). 

E fácil ver as implicações panteísticas desse conceito da realidade, posto que tudo quanto existe, supostamente tem sua origem nas emanações (modos ou níveis da realidade) da essência do próprio Deus. Alguns modalistas empregavam uma analogia do sol e dos seus raios. Os raios solares são da mesma essência do sol, mas não são o sol. Os modalistas supunham que, quanto mais longe os raios ficam do sol, tanto menos são pura luz solar, e que embora os raios participem da mesma essência do sol, são inferiores a este, sendo meras projeções dele. 

A aplicação cristológica dessa cosmovisão identificava Jesus como uma emanação de primeira ordem da parte do Pai, reduzindo-o a um nível abaixo do Pai no tocante à natureza de sua existência ou essência. Embora Jesus fosse considerado a mais sublime ordem de existência à parte de "O Único, Ele não deixava de ser inferior a ele, e dependia dele quanto à sua existência, embora fosse superior aos anjos e à raça humana". 

Sabélio (século III) era o maior defensor do monarquianismo modalístico, e o responsável pelo seu maior impacto sobre a Igreja. Originando-se nele a analogia do sol e dos seus raios, negou ser Jesus deidade no mesmo sentido eterno que o Pai o é. Essa ideia levou ao termo teológico homoiousios. O prefixo homoi, significa "semelhante", e a raiz, ousios, significa "essência". Sabélio, portanto, argumentava que a natureza do Filho era apenas semelhante à do Pai; não era portanto idêntica à do Pai. 

Sabélio foi condenado como herege em 268, no Concílio de Antioquia. A diferença entre homo ("idêntico") e homoi ("semelhante") talvez pareça trivial, mas a letra "i" é a diferença fundamental entre as implicações panteísticas do sabelianismo (confundir Deus com a sua criação) e a plena divindade de Jesus Cristo, à parte da qual ficariam grandemente prejudicadas as doutrinas da salvação. O Monarquianismo Modalístico, ao abandonar a plena Divindade e Personalidade de Cristo e do Espírito Santo, foi também uma tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário. 

 ARIANISMO: A TERCEIRA TENTATIVA FRACASSADA 

Embora Ário fosse aluno de Luciano, e, portanto, participasse da linha do Monarquianismo Dinâmico proclamado por Paulo de Samosata, foi além deles na complexidade teológica. Foi criado em Alexandria, onde também foi ordenado presbítero pouco depois de 311, apesar de ser um discípulo da tradição antioquiana. Nos meados de 318, despertou a atenção de Alexandre, o novo arcebispo de Alexandria. Este o excomungou em 321 por causa de suas opiniões heréticas a respeito da Pessoa, da natureza e da obra de Jesus Cristo. 

Ário esforçou-se por ser restaurado à igreja, não por arrependimento, mas a fim de que suas opiniões a respeito de Cristo se tornassem a teologia oficial da Igreja. Nesse esforço, procurou a ajuda de alguns dos seus amigos mais influentes, inclusive Eusébio de Nicomédia e o renomado historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia, bem como vários bispos asiáticos. Continuou ensinando sem a aprovação de Alexandre. Suas especulações provocaram muitos debates e confusão na Igreja. 

Pouco depois da excomunhão de Ário, Constantino passou a ser o único imperador de todo o império romano. Constantino ficou muito desgostoso ao descobrir que a Igreja estava vivendo tamanho caos devido a controvérsia ariana que, inclusive, ameaçava a estabilidade política e religiosa do império. Apressou-se então por convocar o primeiro concílio ecumênico, o Concílio de Nicéia, em 325. 

Ário ressaltava que Deus Pai é o único Monarca e, portanto, que só Ele é eterno. Deus é "ingênito", ao passo que tudo o mais, inclusive Cristo, é "gerado". Ário asseverava, incorretamente, que a ideia de ser "gerado" transmite o conceito de ter'sido criado.53 Ao mesmo tempo, deu-se ao trabalho de separar-se das implicações panteísticas da heresia sabeliana, ao insistir que Deus não tinha nenhuma necessidade interna de criar. Disse, também, que Deus criou uma substância (lat. substantia) independente, que Ele empregou para criar todas as demais coisas. Essa substância independente, primeiramente criada por Deus, acima de todas as outras coisas, era o Filho. 

Ário propôs que a incomparabilidade do Filho é limitada , ao fato de ser a primeira e maior criação de Deus. A encarnação do Filho é concebida, no pensamento ariano, como a união entre a substância criada (o Logos) com um corpo humano. Ensinava que o Logos ocupava o lugar da alma dentro do corpo humano de Jesus de Nazaré.54 Harnack tem razão ao observar que Ário "é monoteísta rigoroso somente no que diz respeito à cosmologia; como teólogo é politeísta". 

55 Ário, noutras palavras, na cosmologia reconhecia uma única Pessoa, que é Deus; mas na prática, estendia a adoração (reservada para Deus somente) a Cristo, o mesmo Cristo que declarara (em outro contexto) ter sido criado. 

A cristologia de Ário reduzia Cristo a uma criatura e, como consequência, negava a obra salvífica do Filho de Deus. Com isso, o arianismo foi também uma outra tentativa fracassada de sair do labirinto doutrinário. Pelo contrário, entrou por um corredor sem saída.

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TEOLOGIA SISTEMÁTICA 

STANLEY HORTON 


quarta-feira, 22 de janeiro de 2025

História da Igreja

 

HISTÓRIA DA IGREJA 

A história da Igreja é um campo rico e fundamental para compreender o desenvolvimento do cristianismo ao longo dos séculos, suas influências culturais, sociais e políticas, além de sua evolução teológica e organizacional.

Importância da História da Igreja

  1. Compreensão das raízes do cristianismo: Permite entender como o cristianismo se originou e se consolidou como uma das maiores religiões do mundo.
  2. Estudo da expansão missionária: Mostra como o cristianismo se espalhou por diferentes culturas e regiões.
  3. Análise de desafios e crises: Ajuda a refletir sobre as perseguições, heresias e divisões internas enfrentadas pela Igreja ao longo do tempo.
  4. Influência na sociedade e na política: Revela a relação entre Igreja e Estado, bem como sua influência em leis, educação e artes.
  5. Crescimento teológico: Permite compreender o desenvolvimento das doutrinas cristãs e o impacto de concílios e movimentos reformistas.
  6. Fortalecimento da fé: Para muitos, estudar a história da Igreja inspira um maior compromisso espiritual ao ver a fidelidade de cristãos em contextos desafiadores.

Divisões da História da Igreja

A história da Igreja é geralmente dividida em períodos para facilitar seu estudo. As divisões podem variar, mas uma classificação comum é a seguinte:

  1. Igreja Primitiva (30-313 d.C.)

    • Início no Pentecostes.
    • Expansão do cristianismo pelo Império Romano.
    • Perseguições sob os imperadores romanos.
    • Escritos dos Pais Apostólicos e apologistas.
  2. Igreja Imperial (313-476 d.C.)

    • Legalização do cristianismo pelo Édito de Milão (313).
    • Cristianismo como religião oficial do Império Romano (391).
    • Concílios ecumênicos, como Nicéia (325) e Constantinopla (381).
  3. Igreja Medieval (476-1517)

    • Queda do Império Romano do Ocidente.
    • Formação do papado e poder da Igreja na Idade Média.
    • Escolástica e obras de teólogos como Tomás de Aquino.
    • Cruzadas e conflitos internos.
  4. Reforma e Contrarreforma (1517-1648)

    • Início com Lutero e as 95 Teses.
    • Surgimento de novas denominações protestantes.
    • Concílio de Trento e resposta da Igreja Católica.
  5. Igreja Moderna (1648-1914)

    • Iluminismo e questionamentos à religião.
    • Expansão missionária global.
    • Separação entre Igreja e Estado em muitos países.
  6. Igreja Contemporânea (1914-presente)

    • Impacto das guerras mundiais.
    • Renovação do catolicismo no Concílio Vaticano II (1962-1965).
    • Crescimento de movimentos pentecostais e neopentecostais.
    • Ações ecumênicas e diálogo inter-religioso.

O estudo da história da Igreja contribui para valorizar o passado, compreender o presente e projetar o futuro do cristianismo em um mundo em constante mudança.

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